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Ganhar
dinheiro a fazer vinho... ou fazer vinho para ganhar dinheiro?
por Pedro Gomes (Portugal)
Publicado em: Os 5 às 8
(site de provas)
Data de publicação: 07/10/02
Enviado por: Luis Camisão (Portugal)
Data de remessa: 17/05/04
Já alguém se deu conta do
ritmo diabólico que assolou o sector vinícola nacional, nos últimos
anos? Por acaso, já se aperceberam do ritmo estonteante com que os enófilos
portugueses vão digerindo este frenesi? Desde a casta ao enólogo,
passando pelo produtor ou pela madeira de estágio, tudo serve de
argumento para que novos vinhos surjam no mercado nacional. No meio de
tudo isto a «afficion» rejubila, dando largas às suas idiossincrasias
em estado líquido. Seja porque é "pé-franco" ou porque são
vinhas centenárias, seja porque as uvas são pisadas a pé ou se trata
de um monovarietal ou, invocando, ainda, que é "de garagem"
ou que o enólogo pertence ao "jet-set vitivinícola", tudo
serve de pretexto para a aquisição de mais umas quantas garrafas.
Fico satisfeito que assim seja e, eu próprio, tiro partido desta
conjuntura, acedendo a vinhos que, globalmente, e no bom sentido do
termo, estão a "vindimas-luz" dos vinhos que os nossos pais
enalteceram. Contudo, tal contexto, de completa euforia para os
apaixonados do vinho, suscita-me uma dúvida inquietante. E o consumidor
comum? Como reage perante centenas de novos rótulos que se vão
acumulando nas prateleiras e escaparates? Deles depende a vitalidade
económica do sector mas perante este verdadeiro «estado de sítio», só
podem ficar atordoados e hesitantes nas suas opções de escolha. Já
existia a prova cega; agora ficamos a saber que também existe a escolha
«às escuras»!
Os detractores desta posição argumentam que os rótulos são cada vez
mais elucidativos. Serão? Será que o comum dos mortais, que olha para
o vinho apenas como um elo de ligação natural com a gastronomia, pode
confiar numa escolha baseada na informação dos contra-rótulos? Não
creio. Carvalho Allier... O que é isso? Maloláctica em barrica?...
Nunca ouvi falar! Longa curtimenta?... Deve ter a ver com curtumes!
Batonnage?... Se calhar leva batôn! Tenham dó do ceguinho. A confusão
deve ser mais que muita e, o mais grave é que, no meio de tantos
vinhos, muitos aspiram a integrar o segmento «high-end» e, a maioria não
passa de produtos de 2ª ou 3ª categoria, a preços de
"super-liga". Costuma dizer-se que só se cai uma vez mas,
convenhamos que, perante tantas opções de escolha, os "tropeções"
têm que ser mais que muitos. É que, sejamos sinceros, vende-se aí
muito «gato por lebre» e muitos destes consumidores, com bastante freqüência,
vão deparar-se com um "felino" dentro do copo.
Seria desejável que eles conhecessem os profissionais que se movem nos
bastidores do sector. Se tal acontecesse as inquietações seriam
menores. Não sei se por detrás de um grande homem está uma grande
mulher mas, não tenho a mínima dúvida que por detrás de um grande
vinho estão sempre, em associação, repito, em associação, um grande
enólogo e uma estrutura e projecto sérios. Ora, o mercado nacional
mostra que nem todos alinham por este diapasão: de um lado estão
produtores e enólogos que se entregam de corpo e alma à causa, imbuídos
por uma determinação e um espírito de inconformismo que os leva a
desbravar novos caminhos e a sulcar a "última fronteira".
Chamam-lhes loucos ou maluquinhos, na maior parte dos casos porque uma
determinada vinha, um tipo particular de microclima, ou uma nova
interpretação da influência da madeira os leva a conceber novos
vinhos. Pessoalmente, o elo de ligação e o denominador comum que
encontro nestas gentes é a paixão pelo vinho. Não pertencem a essa
nova vaga de políticos para quem o termo paixão é uma forma subreptícia
de adormecer as massas. Muito pelo contrário, alinham por uma nova
ordem geovitivinícola mundial para quem a excelência é palavra de
ordem. Conheço alguns com este perfil e sinto que, para eles, o
dinheiro é uma conseqüência lógica do seu inconformismo, da sua
tenacidade, e da busca obsessiva da qualidade. Não imagina o internauta
a força que move esses homens. É o vinho! Não é o dinheiro.
No outro extremo estão uma mão-cheia de oportunistas que, a reboque da
febre do sector, e apoiados em fortes campanhas de marketing, fazem
chegar ao mercado uns "clones" de vinho de qualidade duvidosa.
O mais grave é que o preço de muitas dessas garrafas não tem qualquer
correspondência com a qualidade do líquido que transportam. São uma
zurrapa, umas mistelas e, em bom português, pura fraude. Se os
primeiros ganham dinheiro a fazer vinho, estes últimos fazem vinho para
ganhar dinheiro. Uma subtileza de linguagem, uma nuance ao nível da semântica,
e contudo, uma transformação radical naquilo que chega à mesa do
consumidor. Se para uns o vinho é o fim, para os outros é uma mera
ferramenta para chegar ao vil metal. Bem sei que, para este último
caso, a moderna teoria económica diz que a esperança média de vida
dessa "rapaziada" é curta, mas não é assim tão efémera
que faça esquecer as aldrabices que nos são impingidas.
Um conselho à navegação: vá com cuidado, peça o conselho do amigo
que prova com alguma regularidade, procure enquadrar o seu gosto com as
apreciações dos líderes de opinião, mas nunca caia no erro de olhar
para os seus guias anuais como «bíblias» e, acima de tudo, não
abdique do atendimento minimamente personalizado, solicitando o parecer
dos responsáveis por pequenas garrafeiras. As suas dicas são
preciosas. Depois disso, então sim... abra os cordões à bolsa. Nada
lhe garante que não volte a sentir-se defraudado, mas a probabilidade
disso acontecer decresce. Ninguém lhe assegura que venha a ser bem
sucedido, mas que compensa... ai isso compensa.
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