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Vinhos gaúchos  por Juremir Machado da Silva

Publicado em: Jornal Correio do Povo, Porto Alegre, RS
Data de publicação: 26/05/04
Enviado por: Paulo Roberto Rodrigues
Data de remessa: 26/05/04

Não sou especialista em vinhos. Mas gosto de beber um tinto. Sigo apenas a minha intuição. Gosto do que gosto. Nunca sei explicar o meu gosto. Prefiro os vinhos argentinos aos chilenos. Admiro certos Tannat uruguaios. Chego a pensar que meu lado pampiano influencia o meu paladar. Bebi, certa vez, com Yves Simon, um Pomerol que me faz sonhar até hoje. Tenho predileção pelos aveludados, que não arranham a minha garganta. Implico com cerveja. Acho uma coisa aguada e que encharca. Parece repolho. Deve ser a minha estranha e involuntária mania de estar na contramão.

Esqueci de contar algo no texto do último domingo á respeito de minha semana passada na França. Alain Robbe-Grillet, o chamado papa do Novo Romance, grande conhecedor de vinhos, me surpreendeu ao dizer que, volta e meia, procura um vendedor especializado, em Paris, para comprar vinhos gaúchos. Garante que já temos tintos de grande qualidade. Elogiou a fantástica diminuição da acidez de alguns de nossos vinhos e diz que tem vontade de retornar ao Rio Grande do Sul só para bebê-los no cenário onde são produzidos. O autor de "Os últimos dias de Corinto" sempre valorizou, quase eroticamente, o espaço das coisas. Outro dia, na televisão, vi uma comparação entre vinhos e tecidos. Prefiro compará-los a livros e autores. Um Pomerol de qualidade é para mim como uma página de Proust, de Flaubert ou de Fitzgerald. Um Tannat superior me remete a Céline. Um Cabernet Sauvignon me faz pensar em Balzac ou Machado de Assis. O problema é que nos contemporâneos sempre ando também na contramão. Vejo todo mundo falar em Saramago (prefiro Lobo Antunes) ou, não mais, em Rui Castro, Fernando Morais, Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, João Ubaldo Ribeiro, etc. Fico com gosto de vinhos californianos na boca. Sei não...

Tenho dois amigos franceses que me sacodem literariamente. Um deles, Bertrand, me remete para os já "clássicos" que evitei, tal um Julien Gracq. O outro, Olivier, me faz  mergulhar em contemporâneos, de língua inglesa, devastadores como T. C. Boyle, Chuck Palahniuk e Jonathan Coe. Fico com a cabeça girando ao sabor de um Pomerol. Confesso que João Gilberto Noll e Patrícia Mello já me fazem gozar como se bebesse um bom Tannat, um ótimo argentino, um dos melhores gaúchos e mesmo outros Bordeaux. Ainda bem que os melhores livros de ficção ainda custam mais barato do que os piores vinhos de verdade.

 




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